Santiago Peña é destituído da presidência do Paraguai e preso por rombo no Ueno Bank

Após o escândalo financeiro, o Senado e a Câmara dos Deputados se manifestaram de forma unânime pelo impeachment e o Ministério Público ordenou a prisão. “Peña foi um fusível, porém o esquema corrupto segue intacto”, afirmou o senador oposicionista Ever Villalba

O Senado do Paraguai aprovou nesta sexta-feira (6), por 44 votos a zero, a destituição do presidente do país, Santiago Peña, encerrando um mandato abalado pela quebra do Ueno Bank. A Câmara já havia aprovado a abertura do processo por unanimidade na quinta-feira (5), com 78 votos.

Para tentar se manter livre, Peña anunciou a renúncia no mesmo dia, mas os deputados seguiram adiante com o impeachment. Ele foi detido em sua residência, em Assunção, por ordem da Justiça. “Peña foi um fusível, porém o esquema corrupto segue intacto”, afirmou o senador oposicionista Ever Villalba.

O presidente não compareceu ao julgamento, e os senadores rejeitaram, por 39 votos a 3, seu pedido de mais 72 horas para preparar a defesa. Ele é o segundo presidente eleito democraticamente a ser destituído no país desde 1989 – após a ditadura de 35 anos do general made in USA Alfredo Stroessner. O primeiro presidente havia sido Fernando Lugo, em 2012, em um processo forjado em Curuguaty, onde latifundiários – com tropas de elite treinadas pela CIA – montaram um conflito armado que levou à morte de seis policiais e 11 pequenos agricultores.

Após a ordem de prisão do mandatário do país e do ex-presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, Peña perdeu a possibilidade de se tornar senador vitalício, prerrogativa dada a ex-presidentes que não sofreram julgamento político. A renúncia havia sido uma armação para lhe garantir foro privilegiado e dificultar as investigações.

A falência do banco digital deixou quase três milhões de clientes – 60% do total – sem qualquer acesso às contas, provocando uma onda de protestos no país. A instituição administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos previdenciários. O Banco Central paraguaio interveio no Ueno, que tinha estreitos vínculos com o presidente. O Ministério Público também decretou a prisão de oito ex-dirigentes do banco.

Embora acusado pela oposição de “cúmplice”, o vice-presidente, Pedro Alliana, assumiu o governo depois que a Câmara rejeitou, por 48 votos a 30, o pedido de impeachment contra ele.

A prisão do ex-mandatário ocorreu simultaneamente aos atos protocolares realizados no Congresso Nacional, onde Alliana prestou juramento e assumiu formalmente o comando do Poder Executivo, após o histórico processo de impeachment que destituiu Peña do cargo, devido à sua responsabilidade na crise gerada pela resolução do Ueno Bank.

O senador Ever Villalba reiterou que Peña foi apenas um “bode expiatório” em um vasto esquema de corrupção que permanece intacto, e solicitou o bloqueio de seus bens. O parlamentar oposicionista pediu que Peña fosse levado diretamente para a penitenciária de Tacumbú, onde já se encontram detidos os principais executivos da instituição financeira falida Ueno Bank S.A.

MONTADA GOVERNISTA MONTOU CERCO PARA CALAR VOZES CRÍTICAS

Villalba apontou que o julgamento político chegou tarde e acusou a bancada governista de ter montado um cerco para calar as vozes críticas durante a sessão histórica. O senador igualmente denunciou, com indignação, que vários parlamentares tiveram seus microfones cortados e foram impedidos de justificar seus votos. “Santiago Peña não pode andar livre; ele tem que ir fazer companhia à sua quadrilha na cadeia. Ainda hoje à noite, o Ministério Público deve ordenar sua prisão e determinar o bloqueio preventivo de todos os seus bens, para garantir a devolução do dinheiro roubado do povo”, enfatizou.

A ascensão de quem estava na linha de sucessão não representa qualquer garantia de mudança, alertou Villalba, lembrando que a cúpula do Executivo administrou o país lado a lado com o mandatário que deixa o cargo, durante suas frequentes viagens ao exterior. Questionou, ainda, as palavras finais do ex-mandatário, divulgadas em suas redes sociais, chamando-o de “cara de pau” por tentar se despedir como uma vítima da instabilidade. “Li o comunicado dele durante a sessão; isso demonstra, mais uma vez, sua falta de respeito para com as famílias que ficaram sem suas economias. O sujeito sabia perfeitamente que o banco iria à falência e, em vez de proteger as pessoas, dedicaram-se a injetar mais dinheiro público, de última hora, para salvar seu próprio círculo. Isso é cumplicidade direta e um assalto à mão armada”, condenou.

De forma contundente, a renomada ativista pelos direitos humanos Guillermina Kanonnikoff exigiu que se fizesse justiça por inteiro e não pela metade. “O fato é que seu vice, Pedro Alliana, era cúmplice”, assinalou. A heroica sobrevivente da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989) recordou que houve “enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e administração em proveito próprio”, fazendo com que a instituição financeira responsável por 60% das contas dos paraguaios tenha sido levada à ruína e os correntistas abandonados. Guillermina apontou o “fio condutor até o Partido Colorado e Horacio Cartes”, sublinhando os inúmeros crimes cometidos pelo governo do Partido Colorado contra o patrimônio público. “Vale lembrar e exaltar o exemplo do povo brasileiro que ampliou a pressão e a mobilização para conquistar um país e um continente livres das amarras da dependência”, concluiu.

Fonte: Hora do Povo

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