Titulação reconhece trajetórias de integrantes de comunidades de terreiro de Foz do Iguaçu e de povos indígenas de outros cinco países da América Latina
A UNILA concedeu, na terça-feira (3), os títulos de Doutoras e Doutores por Notório Saber a 12 mestras e mestres de saberes populares e tradicionais do Brasil e de outros cinco países da América Latina. A cerimônia foi realizada no Auditório do Jardim Universitário. As outorgas reconheceram trajetórias de pelo menos 20 anos, legitimadas pelas próprias comunidades e avaliadas por bancas examinadoras.
O Notório Saber é uma forma de reconhecimento acadêmico de conhecimentos demonstrados pela experiência. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional prevê que universidades reconheçam o Notório Saber para fins de docência no ensino superior. Na UNILA, a titulação é equivalente ao doutorado e facilita, por exemplo, a participação em editais para atuar na Universidade. Com isso, mestras e mestres de saberes populares podem compartilhar seus conhecimentos com estudantes e contribuir formalmente com atividades de pesquisa e extensão.
O tratamento por “mestra” ou “mestre” expressa o reconhecimento que essas pessoas já têm em suas comunidades, explica o coordenador do Instituto Mercosul de Estudos Avançados (IMEA), Gerson Galo Ledezma Meneses. Segundo ele, é uma forma de respeito a uma trajetória de conhecimentos que atravessa diferentes áreas e se constrói na vida comunitária. “É nesse sentido que elas podem continuar sendo chamadas de mestras e mestres após receberem o título de doutorado”, observa.
Diversidade
Foram titulados cinco integrantes de comunidades de terreiro de Foz do Iguaçu e sete mestras e mestres dos povos Aymara, da Bolívia; Kichwa, do Equador; Uitoto, da Colômbia; Warekena, da Venezuela; e Maya Kaqchiquel, da Guatemala. Para a reitora da UNILA, Diana Araujo Pereira, a presença de pessoas de diferentes países deu ao reconhecimento uma dimensão própria da missão da Universidade. A gente expande isso do espaço nacional para esse espaço América Latina e Caribe. Então, para nós, isso é muito importante. É um passo a mais na direção da integração pensada – como diria Pepe Mujica -, uma integração dos povos, afirma.
Conquista para as comunidades
Para a mestra de terreiro Ednamar Costa de Almeida, a Mãe Edna de Baru, a outorga representa uma conquista coletiva, especialmente para os povos de terreiro. Titulada em Cultura de Matriz Africana, ela vive há 40 anos em Foz do Iguaçu e associa o reconhecimento à trajetória que construiu na cidade. “Eu nunca imaginei que ficaria tanto tempo em Foz do Iguaçu ou criasse tantas raízes, como essa raiz que hoje eu acabo de fincar na terra”, contou.
Mãe Edna falou da troca de conhecimentos que já ocorre quando pesquisadores e estudantes são recebidos nos terreiros. Para ela, a presença de mestras e mestres na universidade amplia essa troca e ajuda a romper essa muralha de preconceitos, de medo, de desconfiança, de intolerância. Ela lembrou as dificuldades para falar sobre a religiosidade e a cultura dos povos de terreiro na época em que seu neto começou a frequentar a escola e manifestou o desejo de que outras mestras e mestres também sejam titulados.
O mestre do povo Maya Kaqchiquel, da Guatemala, Francisco Ramiro Batzín Chojoj, recebeu o título por seus saberes em Cosmovisão e Governança Indígena. Na cerimônia, dedicou o reconhecimento às pessoas que lhe transmitiram esses conhecimentos. Agradeço à UNILA por este reconhecimento, que recebo em nome do meu povo, dos nossos povos e dos nossos conhecimentos. Agradeço à minha família, particularmente aos nossos anciãos e sábios, que nos transmitiram esses conhecimentos. O reconhecimento que recebo aqui hoje é dirigido a eles, disse.
O processo
A concessão dos títulos seguiu a Resolução CONSUN nº 15/2025, de 20 de outubro de 2025. Segundo Meneses, o requisito central foi comprovar pelo menos 20 anos de experiência reconhecida pelas comunidades. O IMEA abriu os processos e apoiou a elaboração dos memoriais, que reuniram fotografias, vídeos, diplomas e outros registros das trajetórias. Para a avaliação, foram constituídas bancas examinadoras, que reuniram pesquisadoras e pesquisadores da UNILA e de outras universidades do Brasil, de outros países da América Latina e do Canadá. As bancas tiveram dois meses para avaliar a documentação. Ao final desse período, cada mestra ou mestre apresentou seu memorial e respondeu às perguntas da banca.
Os processos receberam o respaldo unânime do colegiado do Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPGICAL) e um parecer técnico da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação. Após cerca de um ano de tramitação, o Conselho Universitário (CONSUN) ratificou os títulos por unanimidade, na reunião ordinária de 28 de agosto.
Meneses situa a iniciativa no projeto nacional Encontro de Saberes, coordenado pelo professor da Universidade de Brasília (UnB) José Jorge de Carvalho. O projeto busca ampliar a participação de mestras e mestres de saberes populares e tradicionais no ensino, na pesquisa e na extensão das universidades públicas brasileiras. Na avaliação de Meneses, a contribuição da UNILA ao projeto foi estender a titulação a pessoas de outros países. “Tem que ter uma integração não apenas de instituições, mas também de saberes”, afirmou.
Continuidade
Em reuniões com a reitora e com o coordenador do IMEA, as mestras e os mestres indígenas apresentaram propostas para dar continuidade ao trabalho com a UNILA. Uma delas é promover a mobilidade de estudantes indígenas entre a Universidade e instituições indígenas, interculturais e comunitárias da região. Segundo Meneses, a Pró-Reitoria de Relações Institucionais e Internacionais (PROINT) está elaborando uma chamada de mobilidade voltada a esses estudantes. A articulação envolve uma rede de universidades da qual participam algumas das pessoas tituladas.
O grupo também propôs a criação de um comitê indígena latino-americano e caribenho na estrutura da UNILA e a formação de um acervo de autoras e autores indígenas na Biblioteca Latino-Americana. As duas propostas ainda serão discutidas com a Universidade. Para Meneses, essas iniciativas dão forma à participação que a titulação pode abrir e ajudam a incorporar ao trabalho acadêmico conhecimentos de povos indígenas e de comunidades afro-diaspóricas.
Mestras e mestres titulados
Foram tituladas as seguintes pessoas:
Amanda Trinidad Villalba Guccione Vieira (Ifarunké Iya), Brasil, comunidades de terreiro – Cultura de Terreiro: Espiritualidade Integrativa.
Ednamar Costa de Almeida (Mãe Edna de Baru), Brasil, comunidades de terreiro – Cultura de Matriz Africana: Terreiro.
Elias Marques dos Santos Filho, Brasil, comunidades de terreiro – Cultura do Terreiro: Espiritualidade Integrativa.
Francisco Ramiro Batzín Chojoj, Guatemala, povo Maya Kaqchiquel – Cosmovisão e Governança Indígena.
Luis Eduardo Maldonado Ruíz, Equador, povo Kichwa – Cultura Indígena: Interculturalidade e Movimentos Sociais.
Maria Ângela da Silva Santos, Brasil, comunidades de terreiro – Cultura de Terreiro: Saberes Alimentares Tradicionais.
María Clemencia Herrera Nemerayema, Colômbia, povo Uitoto – Cultura Indígena: Educação e Direitos.
María Eugenia Choque Quispe, Bolívia, povo Aymara – Cultura Aymara: Memória Andina.
María Laura Santillán Santillán, Equador, povo Kichwa – Cultura Quíchua: Educação Popular.
Milangela Angulo Yavina, Venezuela, povo Warekena – Cultura Warekena: Artes. Roberta Áureo Martins de Souza, Brasil, comunidades de terreiro – Cultura de Terreiro: Artes.
Rubén Hilare Quispe, Bolívia, povo Aymara – Cultura e Língua Aymara: Educação e Letras.
Livro
O primeiro volume da coleção Título de Notório Saber, publicado pela Editora CRV, reúne perfis das mestras e dos mestres da turma de 2026 e identifica as pessoas que integraram as bancas examinadoras. A obra foi organizada por Gerson Galo Ledezma Meneses, Jacqueline Méndez Gamboa, Solange Bonomo Assumpção e Senilde Alcântara Guanaes.
O livro está disponível nos meios físico e digital.
> Acesse mais fotos no Flickr da UNILA: https://flic.kr/s/aHBqjD9LtQ
UNILA é a primeira universidade a conceder a titulação por Notório Saber a pessoas de fora do Brasil (Foto: Judeley Cesaire/SECOM-UNILA)





