Criado pelo coletivo Baque Mulher-Foz, bloco homenageia Martina Conde Piazza e transforma a folia em espaço de resistência, memória e empoderamento feminino
O Carnaval de Foz do Iguaçu ganha um novo e potente significado com a criação do Bloco das Martinas, iniciativa do coletivo de empoderamento feminino Baque Mulher-Foz, que chega às ruas com o objetivo de combater o assédio, o feminicídio e todas as formas de violência contra as mulheres, unindo festa, arte, informação e mobilização social.
Batizado em memória de Martina Conde Piazza, estudante uruguaia vítima de feminicídio durante as celebrações do carnaval de 2014 em Foz do Iguaçu, o bloco promove uma mobilização inédita no carnaval iguaçuense ao inserir o debate sobre violência de gênero, transfobia e machismo estrutural em meio à folia. A proposta é transformar o carnaval em um espaço de reflexão, resistência e protagonismo feminino.
O coletivo Baque Mulher-Foz é reconhecido por sua atuação em defesa dos direitos das mulheres e foi pioneiro na luta pela igualdade menstrual na região da fronteira. Agora, o grupo leva suas pautas para o carnaval por meio do Bloco das Martinas, que já conta com cerca de 200 integrantes, reunindo mulheres de diferentes idades, profissões e regiões da cidade, incluindo estudantes, ativistas e participantes de projetos sociais.
A história que inspira o nome do bloco remete a um dos episódios mais marcantes da cidade. No dia 2 de março de 2014, durante o carnaval, Martina se apresentou com um grupo de maracatu e, posteriormente, encontrou-se com um rapaz em um bar. Após sair do local com ele, a estudante desapareceu. As buscas começaram apenas 48 horas depois, após pressão da Embaixada do Uruguai. Quatro dias depois, Martina foi encontrada morta em um apartamento, em um crime que chocou a comunidade local e evidenciou a gravidade da violência contra as mulheres.
Os dados reforçam a urgência da pauta. Em 2023, Foz do Iguaçu registrou sete feminicídios, mais que o dobro do ano anterior. O Paraná ocupa a terceira posição nacional em número de casos, com 137 registros até setembro de 2023. Em nível nacional, o Brasil contabilizou 1.153 feminicídios até julho de 2023, segundo o Laboratório de Estudos de Feminicídios (LESFEM).
De acordo com a delegada Giovanna Antonucci, da Delegacia da Mulher de Foz do Iguaçu, o crescimento desses números está diretamente ligado a questões estruturais da sociedade.
“O principal fator desse aumento é o machismo enraizado dentro da nossa sociedade. Precisamos lutar fortemente contra o machismo. O Bloco das Martinas é uma linda iniciativa nessa luta diária contra o machismo, já que irá debater um assunto importantíssimo em uma época em que a violência contra a mulher costuma aumentar: no carnaval.”
Para Valentina Rocha Virgínio, coordenadora do Baque Mulher-Foz e idealizadora do Bloco das Martinas, o surgimento do grupo reflete o cansaço coletivo das mulheres diante da violência cotidiana.
“O Bloco das Martinas é um esforço coletivo de mulheres que não aguentam mais conviver com casos de violência contra os seus corpos. Nós queremos levar à narrativa do carnaval o debate e a mudança de comportamento, promovendo um espaço de resistência, memória e luta contra o feminicídio, violências de gênero, assédio e transfobia. Ao mesmo tempo, celebrar, através da arte, a cultura popular nacional, com alegria e protagonismo feminino.”
A idealização do bloco surgiu após debates sobre os desafios enfrentados pelas mulheres em espaços tradicionalmente dominados por homens, como os blocos carnavalescos. A proposta é abordar temas sensíveis de forma responsável, segura e acessível, sem perder o caráter festivo do carnaval.
Segundo Valentina, o bloco também se propõe a dialogar com os homens, convidando aliados a participarem da construção de um ambiente mais seguro.
“O bloco se propõe a ser um espaço inclusivo e seguro para as mulheres. No bloco, os homens aliados também são convidados a participar e apoiar a luta pelo fim da violência de gênero. Afinal, essa é uma luta de todos nós. Esta inclusão visa quebrar o ciclo de violência e, principalmente, dialogar com os homens sobre o fim de todas as violências contra as mulheres, colocando-os nesse lugar de reflexão, já que eles estão no centro do debate, como possíveis agressores.”
Durante o carnaval, o Bloco das Martinas realizará ações educativas, como a distribuição de leques informativos com canais de denúncia, tatuagens temporárias da campanha nacional “Não é Não”, preservativos e materiais de prevenção à saúde. A bateria Baque Mulher, composta majoritariamente por mulheres, simboliza o protagonismo feminino na música e na ocupação do espaço público.
O bloco também reforça a importância da Patrulha Maria da Penha e da atuação em rede com entidades como o CRAM e a Delegacia da Mulher, fortalecendo o acesso à informação e à rede de proteção às mulheres em situação de vulnerabilidade.
Interessadas em participar do Bloco das Martinas podem entrar em contato pelo Instagram @blocodasmartinas. Em situações de urgência ou flagrante de violência contra a mulher, a orientação é ligar 190 (Polícia Militar) ou 180 (Central de Atendimento à Mulher). Em Foz do Iguaçu, a Delegacia da Mulher atende pelo telefone (45) 3521-2150.
Ao ocupar as ruas com memória, resistência e informação, o Bloco das Martinas reafirma que o carnaval também é espaço de luta, conscientização e transformação social, durante a folia e ao longo de todo o ano.





